domingo, outubro 28, 2012

O que seria?




O que seria do mundo
Não fosse o sentido
Que há mesmo no nada
Que para mim o é
E para o outro é tudo?

E das horas de sono
E outras de nem tanto
Em que o poeta cala
Enquanto trêmula
Sua alma se expressa?

E das rochas ínvias
Contra a maré revolta
Que pelo tempo esperam
Por qualquer calmaria
Que as adormeça?

E das crianças tardias
Não fosse o tempo
Sabido e senhor de tudo
Que lhes reapresenta
O que o mesmo levou?

E das flores temporãs
De tão curta existência
Não fosse o olhar
Dos encantados amantes
E a flor de suas paixões?

E da espécie humana
De indivíduos nus
Que assim morreriam
Não fossem seus outros
Irmãos de olhos e pele?

O que seria de tudo
Não fosse o nada no mundo
Ou qualquer outro sentido
Que só o é quando contigo
Amando e sendo por ti amado?
Juca Sacatrapo

domingo, outubro 21, 2012

mão na mão






Nem o mais profético
Dos profetas
Iria prever
Como o menos moderno
Dos modernos
Iria ser

Luvas de por nos pés
Meias de calçar orelhas
Qualquer invencionice
De mero algodão não passa
Se não for logo mostrada
Na teia da esquisitice

E esquisitos somos todos
Muitos uns e outros poucos
No clarão de escuro breu
Terra de todos e ninguém
Que cabe sempre mais alguém
Dono do que não é seu

Novo palanque virtual
Para o movimento social
Arma de mobilização
Que é também lugar banal
De cutucada digital
Que evita cansar a mão

E evita também o contato
Que para muitos chega a ser chato
Pois exige dedicação
Tempo de escuta e olhar
Que cruze com outro olhar
E cause um comichão

O esforço passa a ser tático
Escolha do modo mais prático
Pra chamar a atenção
E o jogo da conquista
Vai no olho, primeira vista
Risco de ser ou não

No esforço continuado
De mostrar a novidade
De uma vida interessante
Muito se mostra do nada
Até a comida agarrada
No dente do navegante

E a quem possa interessar
Há uma nova descoberta
Amplamente difundida
Que alguns loucos reunidos
Inventaram novos sentidos
Para essa monótona vida

Na empreitada proposta
Cada qual com seu esforço
Engrossa a mobilização
De reinventar o tato
E renovar o contato
Face a face, mão na mão

E aos profetas do futuro
De projetos reais
Virtuais ou de onde for
A mensagem da garrafa
Menos que qualquer ameaça
Diz: “navegue, mas faça amor”

Juca Sacatrapo

terça-feira, outubro 16, 2012

Uma vez tamborim...





Qual a melhor proposta de governo?

É a do samba!!!

E nessa toada de todo dia, quase todo ano repetida, Zela Couro de Gato descia os becos do Aglomerado Maravilha, sentido asfalto para longe. Sempre perfilado pelas cordas de seu velho cavaquinho, enquadrado no círculo daquele tamborim companheiro, era ele a voz de alegria única que soava autorizada em meio a tanto desalento.

Na descida, cada casinha colorida que sua ânsia musical embriagada ia ultrapassando representava mais um tom na sua escala de retalhos, como quem costura pano velho pra fazer ponte de atravessar abismos. E vivendo de buraco em buraco, grota abaixo, ia sempre inebriado pelo pó de olho que soprava mente adentro, cujas imagens acinzentadas eram interpretações próprias de uma realidade de ferro e rocha. Para um outro qualquer que tentasse entender, o resumo era sempre “loucura, patifaria, pinga na veia”.

Houve quem, por muitas vezes, tentasse dar a Zela, de bom grado ou simples lorota, razões maiores para outra vida. Do pai herdou milhas de sabatinas quanto à moral em meio ao breu, como tento de descobrir morada atrás do espelho, já que neste o que todos viam era um atestado de caso perdido. Da mãe carregou um embornal surrado carregado de lamúrias, conjecturas de uma alma desejosa por libertação, ditosa na esperança, mas escassa de cautela e temor ao tempo.

Da camaradagem, parcerias de anos das peladas do campo de terra, dos terreiros de tantos encontros, dos contratos verbais de “irmãos até o fim do nada”, poucos restaram. E os que, como Zela, driblaram até rasteira de relâmpago para vingar um ano mais, eram arma para outros propósitos que a ele não tinham ritmo gingado o bastante para fazer coçar a sola dos pés.

Aos quase 45 do segundo tempo, aquele tamborim de todos os dias milagrosamente vencia a travessia da rodovia movimentada e podia avistar, do outro lado da paisagem, sua morada de coração, o galpão de sua amada União Trindadense de Carnaval, sigla em vermelho que nos olhos de Zela pareciam marca de ferrar boi.

Do Aglomerado Maravilha, orgulhosamente único representante, José Lazarino do Espírito Santo e seus tantos predicados musicais foi transformado em Zela Couro de Gato. 7 vidas morro abaixo, tamborim por opção. E assim se manteve vivo até quando não lhe garantiram mais seus reflexos.

Naquela sexta, já passava das 6 horas da tarde, bem mais do que 45 do segundo tempo. O galpão só começava os trabalhos quando Zela apontava seus pés cinzentos portão adentro. “É tempo demais, sinal de coisa boa não”, gritou alguém. Não tardou 5 minutos e a notícia veio em nota dó, trazendo junto uma chuva chorada lá de cima.

Foi-se tamborinando céu afora, levando seus olhos fumegantes de ansiedade por mais uma roda de samba. E no Aglomerado Maravilha deixou sua projeção em cada tarde, de chuva ou de sol, como um vulto que se reproduz continuamente. Qualquer meninote haverá de saber sua história e responderá sem pestanejar:
- Quer ser o que quando crescer?
- É nota de samba, moço. É tamborim vida afora...

Juca Sacatrapo

sábado, outubro 13, 2012

mandamentos




Aquele que chora e ao choro se entrega, como o faz a púbere em sua primeira conjunção carnal, febril e descontrolada, certamente se prenderá a sentidos que no choro jamais habitariam.

Aquele que ora e do pranto crente se alimenta, como o faz o pobre animal em sua ânsia por qualquer gota d’água em sertão ensolarado, certamente empregará significados tão poucos às diversas faces da vida, que a própria não concordaria.

Aquele que prega verdades absolutas e nelas fundamenta o alicerce de sua existência, como reflexo do pretenso homem ideal, certamente se verá tragado pela areia movediça das incertezas humanas, que a própria verdade testemunharia.

Aquele que determina a ignorância como bula e para os entes replica a lei de um homem só, sob a égide do bem cuidar, certamente estará sozinho em seu castelo, ao primeiro estalo do som do mundo, trincando suas redomas e deixando entrar o conhecimento, gerador da transformação.

Aquele que sentencia vidas com uma escrita única, determinando destinos para o bem de um só, e que destes estirpa a plenitude de seus dias, certamente será destronado pela rebeldia que o tempo impõe, seja dos ventos, das horas, dos homens, dos Deuses...

Aquele que se intitula intocável, superior, distinto, de mais valor em face a qualquer outro, certamente com seu próprio delírio será envenado, pois homens são de carne e osso, todos, e putrefatos, todos, no fim. 

Já... 

aquele que ao outro ensina o que sabe, compartilha suas linhas e letras, mais sábio e tanto mais o será quanto for seu desprendimento e boa vontade, pois é ele espelho e também reflexo, verdadeiro sentido da grandeza.

E para aquele que escreve,
que canta,
que conta,
que resiste,
que sente,
que ama,
é concedido o direito de continuar...
Juca Sacatrapo