Qual a melhor proposta de governo?
É a do samba!!!
E nessa toada de todo dia, quase todo ano
repetida, Zela Couro de Gato descia os becos do Aglomerado Maravilha, sentido
asfalto para longe. Sempre perfilado pelas cordas de seu velho cavaquinho,
enquadrado no círculo daquele tamborim companheiro, era ele a voz de alegria
única que soava autorizada em meio a tanto desalento.
Na descida, cada casinha colorida que sua ânsia
musical embriagada ia ultrapassando representava mais um tom na sua escala de
retalhos, como quem costura pano velho pra fazer ponte de atravessar abismos. E
vivendo de buraco em buraco, grota abaixo, ia sempre inebriado pelo pó de olho
que soprava mente adentro, cujas imagens acinzentadas eram interpretações
próprias de uma realidade de ferro e rocha. Para um outro qualquer que tentasse
entender, o resumo era sempre “loucura, patifaria, pinga na veia”.
Houve quem, por muitas vezes, tentasse dar a Zela,
de bom grado ou simples lorota, razões maiores para outra vida. Do pai herdou
milhas de sabatinas quanto à moral em meio ao breu, como tento de descobrir
morada atrás do espelho, já que neste o que todos viam era um atestado de caso
perdido. Da mãe carregou um embornal surrado carregado de lamúrias, conjecturas
de uma alma desejosa por libertação, ditosa na esperança, mas escassa de
cautela e temor ao tempo.
Da camaradagem, parcerias de anos das peladas
do campo de terra, dos terreiros de tantos encontros, dos contratos verbais de “irmãos
até o fim do nada”, poucos restaram. E os que, como Zela, driblaram até rasteira
de relâmpago para vingar um ano mais, eram arma para outros propósitos que a
ele não tinham ritmo gingado o bastante para fazer coçar a sola dos pés.
Aos quase 45 do segundo tempo, aquele tamborim
de todos os dias milagrosamente vencia a travessia da rodovia movimentada e
podia avistar, do outro lado da paisagem, sua morada de coração, o galpão de
sua amada União Trindadense de Carnaval, sigla em vermelho que nos olhos de
Zela pareciam marca de ferrar boi.
Do Aglomerado Maravilha, orgulhosamente único
representante, José Lazarino do Espírito Santo e seus tantos predicados musicais
foi transformado em Zela Couro de Gato. 7 vidas morro abaixo, tamborim por
opção. E assim se manteve vivo até quando não lhe garantiram mais seus
reflexos.
Naquela sexta, já passava das 6 horas da tarde,
bem mais do que 45 do segundo tempo. O galpão só começava os trabalhos quando
Zela apontava seus pés cinzentos portão adentro. “É tempo demais, sinal de
coisa boa não”, gritou alguém. Não tardou 5 minutos e a notícia veio em nota
dó, trazendo junto uma chuva chorada lá de cima.
Foi-se tamborinando céu afora, levando seus
olhos fumegantes de ansiedade por mais uma roda de samba. E no Aglomerado Maravilha
deixou sua projeção em cada tarde, de chuva ou de sol, como um vulto que se
reproduz continuamente. Qualquer meninote haverá de saber sua história e responderá
sem pestanejar:
- Quer ser o que quando crescer?
- É nota de samba, moço. É tamborim vida
afora...
Juca Sacatrapo