segunda-feira, maio 15, 2006

naquele beco tem

abrigo a briga na memória

do tiro me retiro da trajetória

o morro em que corro é moradia
do certo do incerto do quase dia
as batalhas por migalhas que começam
são usadas repintadas por promessas
na imagem coloragem da TV
somos naus meninos maus sei lá o quê
talvez um fruto resto do luto que não se quer
até se assiste mas que não se aviste em um beco qualquer
é perigo, delito motivo pra grito "cuidado, é ladrão!"
"é menino de rua fica na tua na contramão"
beco da vida rua sem saída vamos confrontar
igual a você pra ser ou não ser preciso passar
o beco nos cabe você é quem sabe se quer dividir
medo tamanho jeito estranho de ter que seguir
momento decisivo você vive, eu vivo é assim a "parada"
cada e todo jeito sem preconceito pra tudo e nada
aumentar o alcance dar a todos a chance de mais dignidade
e mudar a cabeça nova raça, floreça! com mais igualdade.

quarta-feira, maio 10, 2006

www.biradodasideias.blogspot.com
É neologismo

Nascisismo
Seja o ismo que for

É lugar de idéias
Crônicas, epopéias
Que é das letras sem dor

Ou que doa um pouco
Que corra louco
Feito dente a latejar

Mas que se abra claro
Ou escuro, porém raro
Com um jeito seu de falar

Meu lugar mais novo
Pra ir sempre e de novo
E sempre voltar

Pois visita nessa casa
Dá mais força pra minh'asa
É motivo pra versar

Sua fala, meu presente,
Se entrar, sempre comente
O que leu nesse lugar

Suas linhas,
meus motivos
De mais mil infinitivos
Como o verbo "nãoparar"
Dez reais - a senha

Tarde de sábado, avenida amazonas, Belo Horizonte. O ônibus parou. Muitas pessoas entravam enfileiradas e quando ele já ia saindo, uma menina corria para alcançá-lo. Nas mãos, uma nota de dez reais. E conseguiu entrar no ônibus, mas a "senha" era aquela nota, porque todos a olhavam com espanto. Era maltrapilha, suja, olhar perdido, tipicamente de uma jovem sob efeito de drogas. Ao que parece ela vive nas ruas de Belo Horizonte. Mais uma daquelas que vivem nas ruas do mundo. E o que me impressionou naquele instante e que me despertou o desejo de escrever foi exatamente a nota de dez reais.

Nem tanto a estética, nem tanto a imagem, nem tanto a reação das pessoas, que já é comum em casos como esse. A nota de dez reais. E estava escrito no semblante daquela menina, mesmo sem a noção real dos fatos, do mundo que a cercava, ela sabia que para se garantir, para garantir o seu "livre acesso", ela teria de apresentar uma credencial do mundo capitalista. E qual delas melhor que o dinheiro?

O motorista, que olhou rapidamente para ela, quando viu o dinheiro em suas mãos, comportou-se normalmente, como se visse a um qualquer dos passageiros de seu dia-a-dia. O trocador fez o mesmo. Mas as pessoas que estavam dentro do ônibus fitavam-na pela sua estética unicamente. Mesmo com o dinheiro na mão, que como já disse a melodia "é vendaval", não se permitiram um olhar diferente do preconceito que mora no padrão.

E de quem é a culpa? Das pessoas que estavam no ônibus querendo apenas ter uma viagem tranquila até suas casas? Da menina de rua que "invadiu" um lugar que não era seu? Do sistema que exclui aquela menina e tantas outras meninas mundo afora? Minha, de perceber coisas como essa e escrever sobre elas? Será a ignorância a melhorar saída?

São tantas perguntas e quase nenhuma resposta. As pessoas, em seu anseio por tranquilidade, estão mais preocupadas em viver suas vidas, seus mundos particulares, preferencialmente sem que sua tranquilidade seja abruptamente estuprada pela presença de "personagens indesejáveis" dos tempos do hoje. A minha vida, a sua vida, a nossa vida é só nossa, o caminho é só nosso, os amores e amigos são só nossos e de mais ninguém. Nosso cartão-postal é feito de belas paisagens, de lugares tranquilos e arejados, com muito verde, luz, sol e pessoas bonitas correndo e se exercitando. No nosso cartão-postal, não cabem personagens rotos e mal acabados. Temos culpa de querermos um mundo belo e colorido sempre? Não. Não temos. E não precisamos correr para o analista apenas porque queremos isso. O desejo mora em uma fábrica de pré-moldados.

A menina maltrapilha tem culpa de ser como é? Talvez tenha, em parte, já que o destino tem poucas rédeas e em geral um delas fica em nossas mãos. Mas como ela pode controlar uma das rédeas se todas as outras se perderam? Ela talvez até queira fazer parte do nosso cartão-postal. E é provável que ela também tenha sua pequena fábrica de pré-moldados. Certo é que ela existe. Está por aí, pelas ruas. Ela também é fruto de uma fábrica, que produz pré-moldados diferentes daqueles dos nossos desejos e que têm se tornado cada vez mais comuns. Indústria em expansão.

E o sistema, onde fica? Ele fica e está em tudo que existe, especialmente pelas cidades. Ele mora naquela nota de dez reais suja que está nas mãos daquela menina. Ali está o código pessoal e a senha para acessar a rede desse grande sistema. Se ela tem, entra. Se não tem, vai ter de seguir a pé até chegar ao seu destino. E pode ser que no meio do caminho, ainda encontre algum outro personagem de conto igual ao seu que a ofereça o conforto de algum delírio surreal e que a faça parar de caminhar, pelo menos por alguns instantes. As outras pessoas, acostumadas com o salário e a renda fixa, por menor que seja, estão esteticamente e tecnicamente garantidos naquele assento de ônibus, com suas indumentárias, sacolas e roupas do gosto médio e amanhã farão o mesmo trajeto, no mesmo horário, pagando o mesmo preço, ao menos até que se aumente o preço da passagem. Essa é a lógica do tão falado sistema. Sistema imperativo do capital.

Minha culpa, intertextualmente questionada, mora também no olhar. Provavelmente não teria reação diferente se fosse eu um dos normais a ocupar lugar naquele ônibus. Iria certamente responder à ultima pergunta feita no sexto parágrafo dessa pretensa discussão. Iria ignorar aquilo e continuar uma conversa com alguém ou olhar para o movimento dos carros, das outras pessoas na rua, do vento batendo nas grandes árvores da avenida amazonas. Ignorância. Uma forma de defesa que nossos desejos nos oferecem para não mancharmos nosso cartão-postal. Mas não, eu não estava lá dentro. Estava lá fora e vi tudo acontecer, como se em um movimento cinematográfico em slow motion. Capturei a imagem, traduzi o código, me indignei.

Esse é o fruto de minha indignação. Diante de minha impotência para "mudar o mundo", como dizia Cazuza, preciso dividir com alguém meu desejo de fazê-lo. Quero repintar meu cartão-postal e deixá-lo um pouco mais real. Que seja produto de uma fábrica de pré-moldados, mas que os personagens que o compõem tenham também a possbilidade de se indignar e expressar sua indignação coletivamente. Mudança coletiva na percepção, MUDANÇA COLETIVA NA AÇÃO.

terça-feira, maio 09, 2006

Oásis

na terra, que brota a incerteza, Tereza
ajuda o pai a lavrar a esperança
na poeira, que banha o caminho, Quinzinho
carrega seu coração de criança

ao longe, a estrada é extensão, Sebastião
faz do fio do vento um sopro de fé
e no cascalho, afiando os gambitos, Zezito
atravessa o cerrado na sola do pé

nas pedras, que aumentam o risco, Francisco
vagueia seu corpo exposto ao sol
e nesse igual, estremecendo alado, Geraldo
resiste tal fosse um peixe no anzol

no vão, desolado sertão, franzino seu João
se levanta pro céu pra fazer o convite
"chuva, sem demora, alegra dona Aurora
faz de nosso chão, fartura sem limite"

e a poesia se constroi

do belo que se esconde
do lamento que doi

da pureza lânguida
e da tristeza que corroi

das imagens marcantes
dos sorrisos abertos

realidades tão vivas
tantas vidas aqui perto

e nossa urbanidade
não nos deixa enxergar

que o sertão de seca farta
pode vir a ser o mar

o mar da fartura
de vasto e mais rico chão

se olhado bem de perto
será farto o nosso pão

De Quinzinho, Tereza,
Geraldo e Sebastião,
todos temos um pouquinho,
na nossa raiz do sertão

seja pobre, seja rico,
não importa o lugar
temos pé fincado ao longe
no sertão que é também mar