- O galo já cantô, diacho! Vai tratá de
alevantar esses cambito e cortá o cariru dos porco
- Mais mainha, e esse frião que tá me cortano as
canela?
- Isfrega as mão que isquenta, uai!
- Mais mainha, já isfreguei inté dimais e num
isquentô foi nada...
- Ocê tá é me inrolanu pra num ir logo fazer
suas obrigação... deixa seu pai voltar do pasto e ti incontrá aqui atoa qui ocê
vai vê cumé qui esquenta de frio.
Para
vosmicê do mundo, tenho a honra de distinguir essa persona, vítima até de
autores tantos da filmografia nacional, que nem com isso jamais se preocupou,
até porque jamais soube que em alguma instância foi transformado em herói.
Que
adentre agora vossas moradas do imaginário, resguardados aqueles que de fato lá
o testemunharam, Vossa Inselença, O Menino.
E
ele vem coberto por um minguado pedaço de pano, que compõe camisa de retalhos surrada
e calção de retalhos igualmente surrado. Essa é a imagem da armadura-tilango. E
para quem o termo não soa familiar, explicá-lo-ei com gosto. Tilango, na voz
das idosas senhoras do sertão, nada mais é do que aquele pedaço de pano, quase
sempre fiapos rasgados que sobraram de um corte que um dia já foi útil, mas que
agora já pouco serviria para pano de chão.
Nos
pés desse rei, um nome bonito, se assim dito, alpercatas. Se vosmicê um dia
chegar pra lá de onde termina a estrada dos carros, ali depois de atravessar o
rio, sem ponte, se equilibrando nas “pinguelas” de bambu, e pronunciar tal
palavra, como a formalidade a impõe, é provável que não a comprem o sentido.
Não faz tanto tempo e minha memória ainda me faz o agrado de trazer, de
presente, aquela “precata” nova, cuja sola foi recortada da borracha de um pneu
velho encontrado às margens da estrada da cidade e cujas tiras foram trançadas
do couro da vaca Esperança, sacrificada depois de cair de um barranco.
Na
cabeça, Vossa Inselença traz uma coroa que também é fruto do desatre da Esperança.
Sua morte tão inesperada e indesejada, abundou em carne, choro e couro. E desse
couro, por um bom tempo curtido, além das tiras da “precata”, nasceu também um
chapéu pequeno, amaciado sol e noite naquele batente sertanejo.
Nos
braços e pernas de fora, o rei só traz a ferrugem que a poeira, o sol e os
arranhões do capim e da lavoura insistem em tornar cada vez mais forte. Com
pouco esforço, Vosmicê consegue rabiscar qualquer impressão, de sentido ou não,
nas canelas cheias de tiririca. E que não se confunda os sentidos. Tiririca por
essas terras é o nome que os mais velhos conferem às sujeiras acumuladas nas
canelas por falta de asseio.
Vosmicê
já consegue ver? Se não, peço que releia. Vossa Inselença já está aí faz tempo.
E enquanto sua imagem foi sendo tecida, uma triste verdade de tilango me desceu
goela abaixo. Inselenças como O Menino lá do mato já estão espalhadas. Não
precisa ir longe.
São
reis meninos sem reinado algum. De “precata”, tilango e esperança. E se Vosmicê
continua achando que não sabe que rei é esse, peço humildemente que releia. E
tá na hora de sair pra cortar cariru pros porcos famintos.
- Já vô, mainha! Já vô...
Juca Sacatrapo

Um comentário:
Adorei o texto!
Postar um comentário