sexta-feira, outubro 12, 2012

“Vossa Inselença, O Menino”




- O galo já cantô, diacho! Vai tratá de alevantar esses cambito e cortá o cariru dos porco
- Mais mainha, e esse frião que tá me cortano as canela?
- Isfrega as mão que isquenta, uai!
- Mais mainha, já isfreguei inté dimais e num isquentô foi nada...
- Ocê tá é me inrolanu pra num ir logo fazer suas obrigação... deixa seu pai voltar do pasto e ti incontrá aqui atoa qui ocê vai vê cumé qui esquenta de frio.

Para vosmicê do mundo, tenho a honra de distinguir essa persona, vítima até de autores tantos da filmografia nacional, que nem com isso jamais se preocupou, até porque jamais soube que em alguma instância foi transformado em herói.

Que adentre agora vossas moradas do imaginário, resguardados aqueles que de fato lá o testemunharam, Vossa Inselença, O Menino.

E ele vem coberto por um minguado pedaço de pano, que compõe camisa de retalhos surrada e calção de retalhos igualmente surrado. Essa é a imagem da armadura-tilango. E para quem o termo não soa familiar, explicá-lo-ei com gosto. Tilango, na voz das idosas senhoras do sertão, nada mais é do que aquele pedaço de pano, quase sempre fiapos rasgados que sobraram de um corte que um dia já foi útil, mas que agora já pouco serviria para pano de chão.

Nos pés desse rei, um nome bonito, se assim dito, alpercatas. Se vosmicê um dia chegar pra lá de onde termina a estrada dos carros, ali depois de atravessar o rio, sem ponte, se equilibrando nas “pinguelas” de bambu, e pronunciar tal palavra, como a formalidade a impõe, é provável que não a comprem o sentido. Não faz tanto tempo e minha memória ainda me faz o agrado de trazer, de presente, aquela “precata” nova, cuja sola foi recortada da borracha de um pneu velho encontrado às margens da estrada da cidade e cujas tiras foram trançadas do couro da vaca Esperança, sacrificada depois de cair de um barranco.

Na cabeça, Vossa Inselença traz uma coroa que também é fruto do desatre da Esperança. Sua morte tão inesperada e indesejada, abundou em carne, choro e couro. E desse couro, por um bom tempo curtido, além das tiras da “precata”, nasceu também um chapéu pequeno, amaciado sol e noite naquele batente sertanejo.

Nos braços e pernas de fora, o rei só traz a ferrugem que a poeira, o sol e os arranhões do capim e da lavoura insistem em tornar cada vez mais forte. Com pouco esforço, Vosmicê consegue rabiscar qualquer impressão, de sentido ou não, nas canelas cheias de tiririca. E que não se confunda os sentidos. Tiririca por essas terras é o nome que os mais velhos conferem às sujeiras acumuladas nas canelas por falta de asseio.

Vosmicê já consegue ver? Se não, peço que releia. Vossa Inselença já está aí faz tempo. E enquanto sua imagem foi sendo tecida, uma triste verdade de tilango me desceu goela abaixo. Inselenças como O Menino lá do mato já estão espalhadas. Não precisa ir longe.

São reis meninos sem reinado algum. De “precata”, tilango e esperança. E se Vosmicê continua achando que não sabe que rei é esse, peço humildemente que releia. E tá na hora de sair pra cortar cariru pros porcos famintos. 

- Já vô, mainha! Já vô...
 Juca Sacatrapo

Um comentário:

Gra disse...

Adorei o texto!